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Catálogo II Mostra Programa de Exposições CCSP- Centro Cultural São Paulo ISBN 978-85-99954-20

Sobre/ On “A União do Povo / People’s Union” por Fabricia Jordão

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O debate acerca do popular é recorrente nas análises sobre cultura, sociedade, economia e política no Brasil e pode ser condensado em duas vertentes conceituais. Na primeira, o conhecimento e a cultura populares, engessado em uma ideia de tradição inconciliável com o nosso processo de modernização, são compreendidos uma alternativa para compreender a realidade brasileira. Esse entendimento, na esfera político-estatal, teve como ponto culminante a Missão de Pesquisas Folclóricas coordenada por Mario de Andrade em 1938. Na segunda, reconciliado com o processo de modernização tecnológica e econômica, o popular passa a ser percebido como um caminho para transformar a realidade brasileira.

Na esfera político-estatal, esse pensamento foi condensado na criação da Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste (1959). Com sede em Recife, concebida pelo economista Celso Furtado, a Sudene teve como principal estratégia de desenvolvimento econômico para a região Nordeste a integração entre desenvolvimento, industrialização e os saberes populares.

Tanto na primeira, como na segunda vertente conceitual, subjaz uma noção de povo como incapaz de existir enquanto sujeito político, e que, enquanto classe desfavorecida, só poderia ser incluída na esfera política a partir da intermediação ora do intelectual, ora do Estado.

No final da década de 1970, com o apoio da Sudene, a arquiteta pernambucana Neide Mota Azevedo coordenou a pesquisa Técnicas construtivas tradicionais do Nordeste (1978) [1], além do estudo sobre a viabilidade de se incorporar métodos construtivos populares nas políticas habitacionais da região, também foi produzida uma documentação iconográfica das soluções construtivas, objetos, mobiliários e utensílios domésticos inventariados ao longo da pesquisa[2].

Quarenta anos depois, Carla Lombardo e  Ж, identificaram e elegeram em fotografias desse arquivo uma forma comum que, para os artistas, sintetizariam o pensamento vernacular: as uniões. Compreendida enquanto “princípios dinâmicos”, como “sínteses disjuntivas do encontro entre a situação (material, econômica, etc) e a necessidade (moradia, utilitários, etc.)” – essa forma comum foi recuperada do léxico da arquitetura popular nordestina e reposicionada no léxico político, servindo de base para a elaboração do vocabulário político orientador da proposta aqui apresentada e condensada nas uniões: Todos por um; Apoio Mútuo: suporta e gira; Sustenta e passa: o dentro é o fora; Diferença: potência.

Ao recuperar soluções construtivas oriundas de um saber comum, expressão da experiência do pensamento e das tentativas do povo em produzir alternativas às formas de vida que lhes são impostas, Lombardo e Pinheiro tanto ativam uma memória como atualizam um debate. Ao fazerem coincidir o popular, posicionado enquanto um corpo político, com o comum[3], compreendido como uma alternativa política à razão neoliberal e ao poder soberano (Estado), os artistas vislumbraram na “inteligência da situação condensada nessas soluções materiais” uma forma de vida política[4] orientada pelo comum, nas palavras dos artistas:

A vida na «precariedade radical» (Lina Bo Bardi) como potência e plenitude é o fio condutor dessa «União do Povo». Revisitar suas formas, reconectar-se com suas forças é ir ao encontro do comum, da comunidade possibilitada pelos espaços e usos, é re-imaginar os arranjos da vida, é coreografar a condição de possibilidade para um “devir- juntos”

A União do Povo, como uma deliberada tentativa de materializar outra possibilidade da forma do político e do político da forma, se estrutura em três núcleos-convites para com-sentir, com-viver e com-partilhar a potência do comum:

O Mnemosyne funciona como um dispositivo de ativação da memória. Trazem à tona as fotografias (as uniões) do arquivo de Neide Mota, as quais, por meio das analogias com os diagramas de forças e das coreografias, tem sua potência atualizadas e perenizadas.
Os Diagramas para movimentos abre a possibilidade para que as coreografias resultantes da associação das quatro uniões com outros gestos e sistemas de pensamentos coletivos possam ser experienciadas, a um só tempo, como processos corpóreos coletivos e como práticas performativas dos espaços onde ocorrem.

Por fim, o Concurso de dança, uma convocatória pública para a criação de uma “coreografia/movimento” que se “relacione/questione/dance” uma “União do Povo”. O tema escolhido, Diferença: Potência, decorre de uma das solução estruturais mais utilizadas nas construções populares: a mistura de vários materiais, a potência da união da diferença.

Vamos?

Fabricia Jordão

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[1] A arquiteta Lina Bo Bardi também desenvolveu trabalhos em consonância com essa vertente do nosso projeto desenvolvimentista. Bardi que viveu em Salvador no mesmo momento em que era implantada a SUDENE, entre 1958-1964, inclusive foi interlocutora de Celso Furtado. A arquiteta projetou um centro de documentação de arte popular – o Museu de Arte Popular da Bahia – e um centro de estudos técnicos sobre o Nordeste – o Centro de Estudos e Trabalho Artesanal – e a Escola de Desenho Industrial e Artesanato, que a partir do artesanato e do conhecimento popular, buscaria desenvolver o desenho industrial brasileiro.

[2] Neide Mota Azevedo viabilizou essa pesquisa por meio de convenio entre o Curso de Arquitetura da Universidade Federal de Pernambuco, onde era professora do Centro de Habitação, e a SUDENE. O estudo foi desenvolvido em co-autoria com a arquiteta Liana Mesquita e o registro fotográfico ficou a cargo da também arquiteta Ivone da Silva Salsa

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[3] Sobre o comum ver Pierre Dardot, Christian Laval, Commun, Essai sur la revolution au 21eme siecle, Paris: Éditions La Découverte, 2014.

[4] A esse respeito conferir AGAMBEN, Giorgio. Meios sem fim: notas sobre a política. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2015.

Link para baixar catálogo:

http://centrocultural.sp.gov.br/site/wp-content/uploads/2018/11/CCSP-catalogo-ii-mostra-exposicoes-2018.pdf

 


 

Berwick Film & Media Fest’s Catalog                                       ISBN: 978-0-9551203-9-8

On “7FF on¢idia” by Peter Taylor and Diana Stevenson

” In 7FF on¢idia Rio de Janeiro FIFA World Cup mascot Fuleco becomes a cipher for the mutation of indigenous people’s symbols through public art and commerce, becoming viral. Other fluxes alluded to are the surplus value of code through a world of commodities, bit coins and mountains of data. 7FF on¢idia ushers us into encounters which are fleeting and leave questions unanswered—all the more reason to watch again.”  (Link)


 

Catálogo 19 FestCurtasBH
ISBN 978-85-66760-16-3

Sobre  “7FF on¢idia”  por  Mariana Souto e Vinicius Andrade

” Ensaio audiovisual empenhado em atribuir dimensão histórica às apropriações iconográficas da natureza e da cultura brasileiras realizadas pelo capitalismo desde tempos longínquos. A montagem experimental, ritmada por sons percussivos e cantos indígenas, tece complexas associações entre elementos como os animais-símbolo da nossa fauna, estampados nos livros didáticos e cédulas do Real, as festas populares, o tatu mascote da Fifa Fan Fest e os gráficos da bolsa de valores.”

On “7FF on¢idia” by  Mariana Souto e Vinicius Andrade

“Audiovisual essay committed to attributing historical dimension to the iconographic appropriations of the Brazilian nature and culture carried out by the capitalism since long ago. The experimental set-up, rhythmic by percussive sounds and indigenous songs, weaves complex associations between elements such as the emblematic animals of our fauna, printed in the textbooks and Real notes, the popular festivals, the armadillo mascot of Fifa Fan Fest and the graphics of the stock exchange.” (Link)

 


 

Site Vertentes do Cinema

Sobre  “7FF on¢idia” por Gabriel Silveira

 (… )  ” assisti à mostra de curtas contemporânea no resistente Cine Vila Rica. Posso confirmar que o espírito do gélido distanciamento do discurso revolucionário audiovisual contemporâneo ainda é algo que se mostra efetivo através de sua política do esgotamento. É na saturação da cadência dos 300bpm fuzilados das imagens e sons multimidiáticos rotineiros que 7FF on¢idia de Ж, Andále! de Petter Baiestorf eLandsape de Luiz Rosemberg Filho encontram seu chão. Ж é ainda um que chega mais longe com toda a guia do estranhamento do léxico estético audiovisual potencializado pela justaposição de sua iconografia transmutada por todo o espectro da degeneração dos médiuns e abertura absoluta de seus objetos (os comerciais das olimpíadas e seus mascotes, as imagens de manifestações pixeladas ao talo, o 16mm riscado e a transa entre o capital e a fauna representado na cédula e o pós-cédula de uma fria tela de ações decryptocurrencies). ”   (Link)


 

Catálogo 05 EAC (Espacio de Arte Contemporáneo)
ISBN 978-9974-36-33101

Acerca de  “EXTRATERRITORIAL” by   Vatiu Nicolas Koralsky

” (… ) Por otro lado,  produce ejercícios en film que destan la tensión que linda entre lo real virtual: los simulacros”

On “EXTRATERRITORIAL” by   Vatiu Nicolas Koralsky

” (… )On the other hand,  produces films that exercises that untie the tension between the real and the virtual: the simulacra”.