Entrevista / Interview


Entrevista (não publicada) com Lila Foster para Revista Bravo / Interview for Bravo Magazine

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Lila– Porque o uso do formato analógico? Como que você entrou nesse universo de produção?

Ж- Entendo o analógico como aquilo que vêm/chega de uma vez, em oposição as unidades discretas do digital. Meu interesse está na modulação dessa materia-energía- informação em pensamento. O propósito é Informar, no sentido de dar forma, de fazer um esforço no sentido oposto à 2ª lei da termodinâmica (nem sempre).

Sabendo que “cada meio ter sua forma e espectro” percebo que lidar com uma e/ou outra materialidade possibilitam campos de força distintos… os materiais (analógico e digital) tem consistências diferentes então as composições e transas que permitem são particulares ainda que obviamente não excludentes.

Para ser mais preciso, me parece que o analógico (película) se impõe mais, com ele lidamos com limites e especificidades do mundo material/físico o que sucita operações que variam num eixo dinâmico entre finitude/desaparição e resilência/resistência. O filme per se já “resiste”.Ele nos impõe limites nos apresenta um mundo quantificável e por vezes imprevisível.

Meu interesse em trabalhar se deu pelo intervalo/ brecha possibilitada pelo seu uso dado ao filme pelos cineastas de vanguarda e experimentais desde os anos 20, mais principalmente a partir dos anos 60. Os agenciamentos possibilitados por e através do material filme – principalmente enquanto ele (o)correu marginalmente em relação ao mundo do cinema (comércio de histórias) e do mundo da arte (comércio de objetos e sensações)- me parecem ter possibilitado a emergência de um campo de forças e relações inéditas e particular, com a qual me interessei em me relacionar. Comecei a trabalhar com filme em 2010, logo de ter estudado numa escola formal/industrial de direção de fotografia e desde então tenho trabalhado – quando posso/consigo- na intercessão/tensão entre o analógico e o digital tentando perceber os limites, zonas cinzentas e instabilidade provocadas pelo seu uso e pela presença do filme em meshworks que incluem diferentes materiais (filme, dados, fotos, etc).

Lila– O que a película pode oferecer que o digital não oferece?

Ж- Além do que já comentei, acho que o filme hoje – no contexto do sul global ou precariado global- se apresenta como uma chance para encarar de frente nossa ” “precariedade radical”, como diria a Lina Bo Bardi. I.e insistir em seu uso é se deparar com uma rede socio-técnica complexa que envolve instituições falidas e em processo de desmonte (Cinematecas, por exemplo); saberes técnicos e materiais em desaparição; acervos e coleções inacessíveis, etc.

É uma persistência que anima uma denúncia do estado do mundo em simultâneo a um anúncio de possibilidades ainda existentes. Nesse contexto emerge também toda uma potência da ordem afetiva, existencial que vem convidar/exigir o re-posicionamento social do artista, saindo de um lugar (em)coberto de um mercado de arte/cinema muitas vezes alienante e competitivo, sugerindo uma reinserção social mais solidária. Isso ocorre seja na forma de articulações políticas para a recuperação/uso/criação de possibilidades técnicas, programações para circulação de filmes e instalações pouco vistas ou mesmo no trabalho docência e publicação. A película nos oferece enfim um campo, uma potência, que quando se consolida passa a ser necessária. Logo sua presença se transforma em algo imprescindível, seja pela modulação sensível que pela economia da atenção que exige ou pela política que agencia. O digital de igual forma se apresenta como uma potência, melhor observada no universo das artes do que do cinema a meu ver. Esse “cinema digital” cujas operações se dão no sentido do efeito de realidade, mise en scene e narrativas me soa duplamente conservador. Por um lado parece reificar o lugar excludente/isolado da produção cinematográfica e artística e por outro lado opera numa confusão/opacidade das reais possibilidades do video (espaço politópico, variação contínua, fluxo de informação) insistindo numa equação estética nada equânime que perdura desde o processo produtivo elitizado, excludente e dependente (para não dizer industrial, num mundo majoritariamente pós industrial) o que persiste até no momento da reprodução desses trabalhos. Enfim, o digital -em certo uso- pode vir a nos separar das condições/restrições materiais do trabalho artístico. O que contraditóriamente – ou seja pensando no barateamento/abundância – pode se abrir como potência ilimitada – veja o caso da Leona Vingativa, do Pedro Paulo Rocha ou de um Ryan Trecartin para citar universos completamente distintos- graças a esse “dispêndio” infinito no uso das possibiilidades produtivas e reprodutivas (cameras baratas e internet) do digital. Enquanto que hoje-2017- a opção pelo uso de um sistema de produção e reprodução analógico nos impõe um modo de trabalho inédito em que o fazer artístico, socio-técnico e político se encontram profundamente inter-relacionados e que pulsam/apontam para um lugar desconhecido, perigoso ” divino e maravilhoso”. Algo que me soa curioso por ser novamente o campo da arte- como o foi nas vanguardas históricas- aquele que atualiza no presente as virtualidades do mundo que vem sendo gestado pelo semio-capitalismo em curso.