Entrevista / Interview


Entrevista  entre com Lila Foster e Ж  por e-mail em dezembro 2017  Revista Bravo (não publicada)

Interview between Lila Foster  & Ж for Bravo Magazine (not published)

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Lila– Porque o uso do formato analógico? Como que você entrou nesse universo de produção?

Ж-Entendo o analógico como aquilo que vêm/chega de uma vez, em oposição as unidades discretas do digital. Meu interesse está na modulação dessa materia-energía- informação em pensamento. O propósito é Informar, no sentido de dar forma, de fazer um esforço no sentido oposto à 2ª lei da termodinâmica (nem sempre).

Sabendo que “cada meio tem sua forma e espectro” percebo que lidar com uma e/ou outra materialidade possibilitam campos de força distintos… os materiais (analógico e digital) tem consistências diferentes então as composições e transas que permitem são particulares ainda que não excludentes…

Para ser mais preciso, me parece que o analógico (película) se impõe mais, com ele lidamos com limites e especificidades do mundo material/físico o que sucita operações que variam num eixo dinâmico entre finitude/desaparição e resilência/resistência. O filme per se já “resiste”.Ele nos impõe limites, nos apresenta um mundo quantificável e por vezes imprevisível.

Meu interesse em trabalhar se deu pelo intervalo/ brecha possibilitada pelo seu uso dado ao filme pelos cineastas de vanguarda e experimentais desde os anos 20, mais principalmente a partir dos anos 60. Os agenciamentos possibilitados por e através do material filme – principalmente enquanto ele (o)correu marginalmente em relação ao mundo do cinema (comércio de histórias) e do mundo da arte (comércio de objetos e sensações)- me parecem ter possibilitado a emergência de um campo de forças e relações inéditas e particular, com a qual me interessei em me relacionar. Comecei a trabalhar com filme em 2010, logo de ter estudado numa escola formal/industrial de direção de fotografia e desde então tenho trabalhado – quando posso/consigo- na intercessão/tensão entre o analógico e o digital tentando perceber os limites, zonas cinzentas e instabilidade provocadas pelo seu uso e pela presença do filme em meshworks que incluem diferentes materiais (filme, dados, fotos, etc).

 

Lila– O que a película pode oferecer que o digital não oferece?

Ж- Além do que já comentei, acho que o filme hoje – no contexto do “sul global” ou precariado global- se apresenta como uma chance para encarar de frente nossa ” “precariedade radical”, como diria a Lina Bo Bardi. I.e insistir em seu uso é se deparar com uma rede socio-técnica complexa que envolve instituições falidas e em processo de desmonte ou no caso Brasileiro, a adoção de modelos liberais de OS “gerindo o espaço” (Cinematecas, por exemplo); saberes técnicos e materiais em desaparição e acervos, coleções inacessíveis.

É uma persistência que anima uma denúncia do estado do mundo em simultâneo a um anúncio de possibilidades ainda existentes. Nesse contexto emerge também toda uma potência da ordem afetiva, existencial que vem convidar/exigir o re-posicionamento social do artista, saindo de um lugar (em)coberto de um mercado de arte/cinema muitas vezes alienante e competitivo, sugerindo uma reinserção social mais solidária. Isso ocorre seja na forma de articulações políticas para a recuperação/uso/criação de possibilidades técnicas, programações para circulação de filmes e instalações pouco vistas ou mesmo no trabalho de docência e publicação.

A película nos oferece enfim, um campo, uma potência que quando se consolida passa a ser necessária. Logo sua presença se transforma em algo imprescindível, seja pela modulação do sensível, seja pela economia da atenção que exige ou pela política que agencia. O digital de igual forma se apresenta como uma potência, melhor observada no “universo das artes” do que no do “cinema”, a meu ver.

Esse “cinema digital” cujas operações se dão no sentido do efeito de realidade, mise en scene e narrativas me soa duplamente conservador. Por um lado parece reafirmar o lugar excludente/isolado da produção cinematográfica, apartada da artística.

Por outro lado opera numa confusão/opacidade das reais possibilidades do video (espaço politópico, variação contínua, fluxo de informação) insistindo numa equação estética nada equânime que perdura desde o processo produtivo elitizado, excludente e dependente (para não dizer industrial, num mundo majoritariamente pós industrial) o que persiste até no momento da reprodução desses trabalhos.

Enfim, o digital -em certo uso- pode vir a nos separar das condições/restrições materiais do trabalho artístico. Ou seja, pensando no barateamento/abundância pode se abrir com o digital uma noção do ilimitada – veja o caso da Leona Vingativa, do Pedro Paulo Rocha ou de um Ryan Trecartin para citar universos completamente distintos. Graças a esse “dispêndio” infinito no uso das possibiilidades produtivas e reprodutivas (cameras baratas e internet) do digital. Enquanto que hoje – principalmente no do “sul global” – a opção pelo uso de um sistema de produção e reprodução analógico nos impõe um modo de trabalho inédito em que o fazer artístico, socio-técnico e político se encontram profundamente inter-relacionados e que pulsam/apontam para um lugar desconhecido, perigoso ” divino e maravilhoso”. Algo que me soa curioso por ser novamente o campo da arte- como o foi nas vanguardas históricas- aquele que atualiza no presente as virtualidades do mundo,mais precário e perverso é preciso ser dito, que vem sendo gestado pelo semio-capitalismo em curso.